depois de uma tarde lendo o guardador de rebanhos e uma noite sem nada pra fazer o espírito-caeiro acabou me atormentando e escrevi - seguindo a idéia de apropriação artística e seguindo a série de poemas-homenagens deste blog - um poema brincando com a poética de caeiro. lá vai...

sou em tudo
e tudo é em mim
os gestos das coisas
são elas somente
coisas brutas
em estado de paisagem
e quando me aproximo
vejo nelas seu jeito
e cada coisa se revela
intensa sem termos
e esqueço delas
depois de gostar
não encontro eixos
não procuro as palavras
prefiro o silêncio
e seu ruído nadificador
palavras estragam as coisas
por isso não me meto
brinco com elas
e as coisas ficam de longe
encontrar um termo
é desbotar uma coisa
pensar uma coisa
é afastar-se dela
as coisas do mundo
existem porque são sentidas
existir é apenas sentir
e eu não trouxe nenhum livro
por isso escrevo estes versos

hoje li quase duas páginas de um poeta místico
e me sonhei em estado lírico
ao pé do rio que passa
pela aldeia de caeiro
que vive ao pé de um outeiro
um rio que não tem de onde vem
nem pra onde vai
o rio que passa na aldeia de caeiro
apenas existe e só faz estar ao seu pé